Trabalho e Carreira

Quando a Mente Brilhante se Cansa: O Déficit de Atenção de Alto Funcionamento e o Sofrimento Silencioso

André Fiker
5 min
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Na psicologia, vem ganhando destaque um perfil que passa despercebido durante anos: pessoas com Déficit de Atenção de Alto Funcionamento. São indivíduos que apresentam sintomas de TDA, mas possuem uma capacidade cognitiva tão elevada que conseguem mascarar para si mesmos e para o mundo as dificuldades reais que enfrentam no dia a dia.

É o famoso caso de quem “sempre se vira”, “sempre entrega”, “sempre dá um jeito”.

Essa é a armadilha.

O paradoxo de um cérebro que funciona rápido, mas se organiza devagar. Essas pessoas costumam ser reconhecidas por traços como:

  • raciocínio rápido
  • criatividade acima da média
  • boa comunicação
  • pensamento analítico
  • hiperfoco em assuntos de interesse

Mas junto a isso, convivem com:

  • dificuldade de manter rotinas
  • sensação de bagunça interna
  • esquecimento crônico
  • procrastinação mesmo sabendo o que precisa ser feito
  • perda de prazos e desorganização emocional
  • uma constante culpa por “não ser suficiente”

O curioso e doloroso é que ninguém percebe. E muitas vezes, nem a própria pessoa percebe.

Quando a inteligência vira estratégia de sobrevivência. Mentes de alto funcionamento desenvolvem, desde a infância, formas sofisticadas de compensar o déficit de atenção. Sem perceber, criam mecanismos como:

• Resolver tudo na última hora (porque dá certo)

A adrenalina vira combustível. O improviso vira método. E o desempenho alto oculta o esforço mental exagerado por trás.

• Se apoiar exclusivamente no hiperfoco

Quando o assunto é interessante, a produtividade explode — e isso alimenta a ideia de que “está tudo bem”. Mas nos temas neutros ou monótonos, a queda de rendimento é drástica.

• Usar o humor, a criatividade ou a inteligência social como disfarce

Externamente, parecem leves, espontâneos e até “descolados”. Internamente, estão exaustos.

• Criar sistemas confusos e altamente personalizados

Listas, alarmes, cadernos, post-its, apps, rituais... tudo para não se perder. E mesmo assim, se perdem.

Essas estratégias funcionam até que deixam de funcionar.

E é aí que a ficha cai.

O colapso silencioso: quando a vida exige mais do que o cérebro consegue mascarar. Para a psicologia, o ponto de ruptura geralmente acontece em momentos de maior demanda, como:

  • início de um novo emprego
  • assumir mais responsabilidades
  • empreender
  • estudar e trabalhar ao mesmo tempo
  • casar ou ter filhos
  • enfrentar uma fase emocionalmente exigente

Nessas fases, o excesso de esforço cognitivo deixa de ser sustentável. O que surge é um conjunto de sintomas que muitos descrevem como:

“Parece que minha cabeça não acompanha mais.”

“Eu sempre fui capaz… por que agora não consigo?”

“Sinto que vivo correndo e nunca chego.”

“Minha mente é brilhante, mas meu dia a dia é um caos.”

Esse é o retrato do Déficit de Atenção de Alto Funcionamento.

O sofrimento invisível de quem ninguém acredita que está sofrendo

Como essas pessoas sempre foram consideradas “inteligentes”, “talentosas” ou “cheias de potencial”, suas dificuldades costumam ser invalidadas:

“Você só precisa se organizar melhor.”

“Você pensa rápido demais, esse é o problema.”

“Se esforça um pouco mais.”

“Você é inteligente, isso não é TDA.”

E então a pessoa começa a duvidar de si mesma.

  • Autocrítica vira rotina.
  • Culpa vira identidade.
  • Produtividade vira fuga.
  • Exaustão vira normalidade.

Por que tantas pessoas passam a vida sem diagnóstico?

Porque o TDA de alto funcionamento não aparece no boletim da escola, não prejudica as notas, e muitas vezes não atrapalha o trabalho no início da carreira.

A pessoa se adapta bem demais. Compensa demais. Faz além do que deveria.

E o sistema recompensa isso. Até que a mente cobra o preço.

O que muda quando o diagnóstico chega

Na psicologia, o diagnóstico correto costuma trazer um alívio profundo:

  • dá nome ao que a pessoa viveu por anos
  • dissolve a sensação de “falha pessoal”
  • abre espaço para novas estratégias
  • reduz a autocrítica
  • melhora a autoestima
  • reorganiza a rotina
  • aumenta a sensação de controle
  • diminui o desgaste mental

É um processo de reencontro consigo mesmo.

Não se trata apenas de melhorar o foco. Mas de reconstruir a relação com a própria mente.

Você se identificou? Isso não é coincidência

Muitas pessoas com TDA de alto funcionamento procuram ajuda somente quando chegam ao limite. Mas não é preciso esperar o colapso.

Perceber padrões, reconhecer sintomas e buscar orientação profissional é um ato de autocuidado e também de coragem.

A alta capacidade cognitiva é um talento, não um esconderijo.

Você não precisa carregar tudo sozinho só porque “consegue”.

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