Prisão de Bolsonaro: o que isso revela sobre a polarização e nossa saúde mental
Vivemos um momento intenso, em que a prisão de Bolsonaro reverbera como símbolo não apenas de um desfecho político-judicial, mas de uma ferida aberta em nossa sociedade: a ferida da polarização. Para muitos, o fato representa justiça. Para outros, injustiça. Mas, independentemente do posicionamento, a repercussão expõe um problema maior e mais profundo: a forma como, em sociedades altamente divididas, pagamos um preço caro pela polarização um preço para a saúde mental, para nossos laços sociais e para a própria coesão comunitária.
Porque sociedades polarizadas sofrem mais e doem mais
Estudos recentes mostram que a polarização política vai além de divergências de ideias ou partidos: ela corrói a confiança entre cidadãos. Num experimento realizado na Espanha e Portugal, pesquisadores constataram que, quando as pessoas sabem que seu interlocutor apoia um partido diferente, há uma queda dramaticamente alta na disposição para cooperar ou confiar mesmo que essa pessoa esteja “anônima”. Ou seja: a simples identidade política de alguém já basta para minar a confiança social.
Esse tipo de divisão gera ruptura nas relações: amigos, familiares, vizinhos pessoas que antes conviviam pacificamente passam a se ver com desconfiança. Essa falta de confiança fragiliza o tecido social, tornando difícil encontrar entendimento comum, mesmo em questões básicas do dia a dia.
Além disso, a polarização acirrada não afeta apenas as relações sociais, mas também a saúde mental e física das pessoas. Um estudo feito com milhares de pessoas nos EUA mostrou que quem se percebe distante politicamente da maioria em seu estado relata mais dias por mês de saúde física e mental ruim.
Outro levantamento recente indica que a polarização pode aumentar os níveis de estresse, ansiedade, depressão resultado da convivência constante com medo, hostilidade, desconfiança e sensação de insegurança emocional.
Quando debates políticos viram batalhas existenciais em que adversários deixam de ser “pessoas com ideias diferentes” e passam a ser “inimigos morais”, não estamos mais falando de democracia saudável. Estamos falando de trauma coletivo, de diminuição da empatia, de perda de capacidade para conviver com a diferença.
A prisão como símbolo e o risco de aprofundar a ferida
A prisão de Bolsonaro, para muitos, representa um momento de reflexão sobre justiça, impunidade e democracia no Brasil. Mas, para além disso, é também um momento de tensão. A polarização se intensifica: de um lado, os que comemoram; de outro, os que enxergam injustiça. A fissura já existente se aprofunda e o risco é que, nesse processo, sejamos incapazes de enxergar o outro como humano.
Quando identidades políticas se sobrepõem à humanidade das pessoas, começa a deterioração da empatia, da capacidade de diálogo, da compaixão valores fundamentais para qualquer sociedade. A consequência pode ser dolorosa: isolamento social, conflito nas relações pessoais, sofrimento emocional, sensação de insegurança, de ser “o diferente” ou “o inimigo”.
Precisamos lembrar: “as pessoas são mais do que sua visão política”
É exatamente por isso que precisamos nos lembrar de algo simples mas essencial: por trás de cada bandeira, de cada ideologia, há uma pessoa. Uma pessoa com medos, sonhos, dores, esperanças. Uma pessoa que, assim como você ou eu, busca pertencimento, dignidade, aceitação.
Reduzir alguém à sua filiação política “petista”, “bolsonarista”, “esquerda”, “direita” é negá-la enquanto ser humano em sua complexidade. É apagar sua história, suas vivências, sua singularidade. E é, no fundo, abrir mão da possibilidade de conviver com a diferença, aprender com ela, construir pontes.
Se queremos uma sociedade mais saudável não apenas politicamente, mas emocionalmente, socialmente precisamos buscar caminhos de reconciliação. Caminhos de empatia, de escuta ativa, de acolhimento. Precisamos lembrar que, antes de sermos eleitores, somos pessoas. Seres humanos com aflições, fragilidades, desejos.
O desafio e a esperança de reconstruir a coesão social
Vivemos um momento de dor, de conflito, de intensas polarizações. A prisão de Bolsonaro é um marco desse momento. Mas não precisa ser um ponto final.
Podemos e precisamos usar este momento para refletir: sobre até que ponto permitimos que nossas diferenças políticas abafem nossa humanidade comum; sobre como o excesso de polarização corrói nossos vínculos sociais e nossa saúde mental; e sobre como podemos reconstruir o tecido social com empatia, respeito à diversidade de ideias e, acima de tudo, respeito à dignidade humana.
Para que possamos olhar para o outro não como ameaça, não como inimigo, mas como pessoa. E redescobrir em cada gente um potencial de convivência, de solidariedade, de cura.
Nós não temos que concordar em tudo. Mas precisamos, urgentemente, lembrar que somos mais do que as nossas crenças políticas.
Importante lembrar - pessoas têm direitos. Ideias não têm direitos.