O Dia em que o Imprevisível Bate à Porta
A gente passa boa parte da vida acreditando que tudo está sob controle. Agenda organizada, planos para o futuro, metas traçadas, rotina funcionando. Até que, de repente, algo acontece e tudo sai do lugar. Às vezes é uma notícia. Às vezes é uma perda. Às vezes é uma mudança que não foi escolhida. E, em alguns lugares do mundo, é literalmente a terra que se move, como no recente terremoto de 7.6 no Japão.
O imprevisível tem esse poder: ele nos arranca do piloto automático. Ele interrompe. Ele impõe pausa. Ele nos obriga a olhar para aquilo que evitamos: nossa fragilidade.
Psicologicamente, o ser humano não gosta de incerteza. Nosso cérebro prefere até uma má notícia conhecida do que a dúvida. A incerteza gera tensão, ativa o medo e cria mil cenários na mente — quase sempre os piores. É por isso que, diante do inesperado, tantas pessoas sentem ansiedade, inquietação, insônia, aperto no peito, vontade de fugir ou simplesmente travar.
Quando algo foge do nosso controle, não dói só o fato em si. Dói perceber que não temos o domínio total da vida. Dói entender que somos limitados. Dói aceitar que, por mais que nos preparemos, algumas coisas simplesmente acontecem.
E é aí que mora um conflito interno profundo: de um lado, o desejo de controle. Do outro, a realidade da impermanência.
O terremoto no Japão simboliza algo que vai além da geografia. Ele representa, em escala coletiva, aquilo que muitos vivem de forma silenciosa: estruturas internas desmoronando. Certezas que caem. Sonhos que mudam de rota. Planos que não se cumprem.
Nem todo abalo faz barulho. Alguns são sutis. Um esgotamento emocional. Um relacionamento que vai se desfazendo aos poucos. Uma crise de identidade. Um medo que cresce em silêncio.
A boa notícia embora nem sempre pareça é que o ser humano possui uma incrível capacidade de adaptação. A mente sofre, resiste, questiona… mas também aprende, muda e se reorganiza. A isso chamamos de resiliência: a habilidade de continuar mesmo quando não é como imaginávamos.
Ser resiliente não significa ser imune à dor. Significa não se perder completamente dentro dela.
Aprendemos a ser resilientes quando:
• entendemos que nem tudo depende de nós
• aceitamos ajuda sem culpa
• paramos de exigir controle absoluto
• damos novos significados ao que foi perdido
Talvez o maior aprendizado do imprevisível seja esse: ele nos ensina, mesmo à força, a viver com mais presença. Porque quando percebemos que não dominamos tudo, o agora ganha mais valor.
O terremoto que atinge uma cidade mobiliza resgate, reconstrução e solidariedade. Os terremotos internos também pedem cuidado, tempo e apoio. A diferença é que, muitas vezes, ninguém vê.
Às vezes, a vida não avisa. Ela simplesmente muda.
E nós mudamos junto ou ficamos presos ao que já não existe mais.
O imprevisível assusta. Mas também revela forças que a gente só descobre quando tudo treme.